Cravo na Carne - Fama e Fome


Blog do livro "Cravo na Carne - Fama e Fome", de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, publicado pela editora Veneta em 2015.
Contemplado pelo Prêmio Carequinha, da Funarte, "Cravo na Carne - Fama e Fome" traz as histórias de onze mulheres que, entre os anos 1920 e 1950 do século XX, se exibiram como faquiresas no Brasil.
Muito populares na época, as provas de faquirismo consistiam, em sua maioria, no encerramento do faquir ou da faquiresa em uma urna transparente durante um determinado período de dias, semanas ou até mesmo meses, em absoluto jejum, muitas vezes sobre pregos ou cacos de vidro e ao lado de cobras.
O ar de mistério e tragédia que envolvia a exótica profissão não se limitava aos locais onde se realizavam tais provas e também se fazia presente nas vidas pessoais de seus representantes.
O que levaria uma mulher a escolher o faquirismo como arte e profissão em uma época em que optar por carreiras como as de atriz ou cantora já era o suficiente para que não fossem bem vistas pela sociedade preconceituosa e moralista de então?
Quem foram nossas faquiresas?
Como elas eram vistas por seus contemporâneos?
Buscando responder a essas e a outras perguntas, Alberto de Oliveira e Alberto Camarero realizaram extensa pesquisa, cujos resultados trazem à tona em "Cravo na Carne - Fama e Fome".

Entre em contato com os autores através do e-mail:

alberto1992oliveira@gmail.com

Este projeto foi contemplado pelo PRÊMIO FUNARTE CAIXA CAREQUINHA DE ESTÍMULO AO CIRCO

Pintura de Alberto Camarero, 2015

Em 1958, Alberto Camarero tinha oito anos de idade e vivia em Campinas, no interior de São Paulo.
Foi quando chegou na cidade uma jovem bela e loura prometendo passar quarenta dias jejuando encerrada em uma urna de cristal, deitada sobre uma cama de pregos, na companhia de cobras.
Era a faquiresa pernambucana Verinha.



Verinha, 1958

A urna foi instalada dentro de um pavilhão montado no centro de Campinas e Verinha iniciou sua prova.
Camarero passou a acompanhar as notícias sobre a faquiresa no jornal local "Correio Popular". Por fim, pediu a seu irmão mais velho que o levasse para ver o espetáculo.
A experiência foi transformadora.
Diante da urna da faquiresa, Camarero descobriu-se artista. Na vida adulta, tornou-se cenógrafo, artista plástico e ator.
Verinha cumpriu o que prometera e passou pouco mais de quarenta dias jejuando.
Então partiu de Campinas e, por muitos anos, não se ouviu falar dela na cidade.



Pintura de Alberto Camarero, 2018

Camarero, porém, jamais a esqueceu e procurou sua pista por muitas décadas, até 2012, quando conheceu o historiador Alberto de Oliveira.
Juntos, os Albertos descobriram o paradeiro de Verinha, com setenta e sete anos de idade em 2012, e Camarero pôde finalmente revê-la.
Mais de cinquenta anos depois, o fã-mirim tornou-se amigo de sua faquiresa.


Cartão comemorativo da prova de jejum realizada pela faquiresa Verinha em Campinas em 1958

Buscando a pista de Verinha em jornais antigos, os Albertos descobriram a existência de diversas faquiresas exibindo-se no Brasil, não apenas contemporâneas de Verinha, mas também nos anos 1920.
O faquirismo era uma arte comum no Brasil no século XX. O formato das exibições variavam: algumas vezes, a cama de pregos era trocada por uma cama de cacos de vidro; outras vezes, os faquires exibiam-se crucificados. Bocas costuradas e outras torturas também podiam fazer parte do show.
O auge do faquirismo no Brasil aconteceu nos anos 1950, principalmente depois que o faquir gaúcho Silki bateu o Recorde Mundial de Jejum em uma prova realizada ao longo de cem dias no Cineac Trianon, no Rio de Janeiro.


Silki em prova de jejum realizada no Largo do Paissandú, no centro de São Paulo, em 1957

A vitória de Silki e a projeção que ele obteve com seu recorde estimularam dezenas de homens e mulheres a ingressarem no faquirismo e realizarem provas de jejum em todo o Brasil, nas capitais e no interior.
Os homens que praticavam o faquirismo eram mais numerosos do que as mulheres: faquires como Urbano, Lookan, Zokan (ainda apresentando-se como Príncipe Aladim), Zamor Júnior, Jathan, Kasman, Heráclis, Mogli, Príncipe Ígor Ahasmahad Rubinsky e tantos outros eram figuras conhecidas no Brasil nos anos 1950.


Lookan em prova de jejum realizada em Belo Horizonte em 1956

Mas foram as faquiresas do Brasil que fascinaram os Albertos.
A pesquisa sobre suas trajetórias artísticas e pessoais tornou-se livro em 2015, quando "Cravo na Carne - Fama e Fome: O Faquirismo Feminino no Brasil" foi publicado pela editora Veneta.
O livro detalha os perfis de onze faquiresas que exibiram-se jejuando no Brasil entre 1923 e 1960. Histórias de vida romanescas, muitas vezes trágicas, de mulheres transgressoras, muito à frente de seu tempo, que foram esquecidas pelo grande público e sobre quem ninguém falou até essa publicação.
Hemerotecas, arquivos públicos e privados, museus, bibliotecas e familiares ajudaram os Albertos a montar o quebra-cabeça das vidas de cada uma dessas mulheres.
Outras faquiresas foram descobertas após a publicação do livro. A pesquisa continua e há muito para ser levantado a respeito das mulheres que dedicaram-se a essa arte.



AS FAQUIRESAS DO LIVRO




Rose Rogé. Era francesa, trabalhou como costureira e foi dona de uma pensão no Rio de Janeiro antes de tornar-se faquiresa. Em seu tempo de dona de pensão, envolveu-se em um escândalo com um padre e perdeu tudo o que tinha. Levando uma vida miserável e passando fome, percebeu que podia ganhar algum dinheiro jejuando. Em 1923, exibiu-se no Rio de Janeiro, jejuando durante oito dias enterrada dentro de um caixão. O espetáculo foi visto pela imprensa como um marco feminista, pois era a primeira vez que uma mulher apresentava-se jejuando no Brasil. Os homens faziam isso no país desde 1899.




Gitty. Alemã  que realizou provas de jejum no Rio de Janeiro e em São Paulo em meados dos anos 1920. Ficava fumando cigarros de fumo louro e bebendo águas minerais exposta em um quarto de cristal, bem maior do que as urnas tradicionais usadas pelas faquiresas. Seus empresários foram acusados de explorá-la durante sua exibição na capital carioca.




Arady Rezende.  Foi popular em São Paulo no final dos anos 1920, exibindo-se quase sempre ao lado de seu companheiro Américo Piza, em competições de resistência física nas quais prometiam mostrar quem aguentava passar mais tempo sem comer: o homem ou a mulher. Morreu jovem em um hospital psiquiátrico em 1935, vítima de caquexia.




Zaida.  Chegou em São Paulo em 1951, vinda de algum lugar da América Latina, provavelmente da Argentina. Apresentou-se no Largo do Paissandú, no centro de São Paulo, jejuando no interior de uma urna de cristal.




Rossana. Gaúcha, exibiu-se em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, no Cineac Trianon, onde pretendia bater o Recorde Mundial Feminino de Jejum em 1955. Fracassou e suicidou-se menos de um ano depois. Sua morte trágica foi manchete nos principais jornais do Brasil.




Mara. Esposa do faquir Urbano, deixou Curitiba no final dos anos 1940 para aventurar-se como faquiresa na América Latina. Em 1956, bateu o Recorde Mundial Feminino de Jejum no Cineac Trianon, no Rio de Janeiro, após sessenta e sete dias de jejum.




Iliana. Natural do Paraná, foi casada com Vicente Cabistany, que atuou como faquir e foi empresário de vários faquires brasileiros nos anos 1950. Campeã Mundial de Jejum Feminino após passar setenta dias sem comer em uma prova realizada no Teatro Marrocos, no Recife, em 1956.




Yone. Esposa do faquir Lookan, que aparece ao lado de sua urna na fotografia.  O casal jejuou lado a lado entre o final de 1957 e o início de 1958 em um pavilhão montado na Praça do Correio, no centro de São Paulo. Nessa prova, Lookan e Yone bateram os recordes mundiais masculino e feminino de jejum. Ele com cento e trinta e quatro dias e ela com setenta e seis. Em 1966, Lookan assassinou Yone a tiros.




Marciana, nome artístico de Geny Santana Pastore. Foi flagrada comendo de madrugada durante uma prova de jejum na Penha, em São Paulo, em 1958. No ano seguinte, foi presa, acusada de sequestrar várias crianças. Conseguiu escapar da polícia e foi viver no Paraná, onde, ao que tudo indica, sequestrou outras crianças, sem jamais ser punida por isso. Em Foz do Iguaçu, nos anos 1960, foi dona de um centro de Umbanda.




Verinha. Pernambucana, foi passista de frevo e atuou no teatro de revista e em chanchadas no Rio de Janeiro entre 1955 e 1957. Em 1958, exibiu-se como faquiresa em Campinas.




Suzy King, nome artístico de Georgina Pires Sampaio. É a faquiresa da capa do livro. Iniciou a carreira artística nos anos 1930, interpretando canções indígeno-brasileiras em cabarés, dancings e no rádio, como Diva Rios. Nos anos 1950, adotou o nome Suzy King e passou a apresentar-se dançando com cobras. Em 1956, jejuou em Juiz de Fora e em São Paulo. Ficou conhecida no Rio de Janeiro, onde viveu por muitos anos morando em um apartamento em Copacabana, pelos escândalos que provocou no final dos anos 1950. Um dos episódios que ficaram mais conhecidos foi quando Suzy King cavalgou seminua pelo centro do Rio de Janeiro em 1959 para divulgar uma prova de jejum que faria na Galeria Ritz. A multidão avançou sobre Suzy King e ela acabou na delegacia. Em 1966, assumiu uma identidade falsa - Jacuí Japurá Sampaio -  e foi para o México, onde era anunciada como Yacui Yapura, la Reina del Amazonas, nos shows com suas serpentes. Morreu em Chula Vista, na Califórnia, em 1985, morando sozinha em um trailer. Para saber mais sobre Suzy King, acesse http://suzyking.blogspot.com.br/



OUTRAS FAQUIRESAS


Sandra. Gaúcha, é provável que tenha sido a última Campeã Mundial de Jejum Feminino brasileira. Bateu esse recorde em 1958, depois de passar oitenta e três dias sem comer em Porto Alegre. Foi uma das faquiresas brasileiras com a carreira mais longa: entre 1948 e 1958, exibiu-se jejuando doze vezes.




Malba. Discípula paulista do faquir Silki.  Chegou a bater o Recorde Mundial Feminino de Jejum em Porto Alegre em 1958, com oitenta dias sem comer, mas foi rapidamente suplantada pela faquiresa Sandra, que jejuava na mesma praça simultaneamente e a ultrapassou em três dias.
  



Dzy Tzú.  Descendente de japoneses lavradores de Goiás, quase tornou-se freira, mas desistiu seis meses antes do juramento claustral e lançou-se como faquiresa. No final de 1957, exibiu-se em Juiz de Fora.




Najja, nome artístico de Auta Messias.  Foi a última faquiresa brasileira do século XX. Exibia-se jejuando quase sempre crucificada. Algumas vezes, usava cama de pregos em suas provas. Natural de Marília, no interior de São Paulo, atuou como faquiresa no final dos anos 1960.



Após o lançamento de "Cravo na Carne - Fama e Fome: O Faquirismo Feminino no Brasil", as faquiresas tornaram-se fonte de inspiração para diversos artistas, principalmente aqueles ligados às discussões de gênero e da mulher.
A cineasta e atriz Helena Ignez  está preparando um documentário intitulado "Filme Faquirismo" e um longa-metragem de ficção protagonizado por uma personagem faquiresa intitulado "Uma porta para o infinito" e a Confraria das Malvadas (integrada por Beatriz Cruz, Bruno Caetano, Inês Bushatsky, Paula Klein, Rafael Bicudo e Verônica Veloso) trabalha na criação de performances baseadas nas faquiresas do Brasil.
Na noite de 24 de fevereiro de 2018, foi realizada A Noite das Faquiresas no Bar e Espaço Cultural Presidenta (Rua Augusta, 335, Consolação, São Paulo, SP), na qual reuniram-se os Albertos, a faquiresa Najja, a lutadora circense Lana Campos, Helena Ignez, o analista junguiano Roberto Gambini e os integrantes da Confraria das Malvadas falando ao público presente sobre a relação entre faquirismo e feminismo e apresentando a performance "A Carne".



Os Albertos e a cineasta e atriz Helena Ignez n'A Noite das Faquiresas, 2018

Nenhum comentário:

Postar um comentário